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  • Paula Brandao

Matilda - A Saga da fé


Sim, todos nós temos um pouco de religiosidade em algum momento da nossa vida. Afinal, quem nunca clamou ao céu em uma simples frase do tipo: “Oh! Meu Deus!” ou “Deus nos acuda!” ou então “Senhor do Céu!” E não adianta negar, pois em se tratando de múltiplas tendências e guetos religiosos, existem ricas histórias de influência de tribos e nações em todas as pessoas e, a qualquer hora, esse instinto pode vir à tona revelando até o mais ateu dos ateus.

Era manhã de sexta-feira quando o céu amanheceu preguiçoso escondendo as montanhas e velando o asfalto quente da terra do pão de queijo e doce de leite. O dia longo que se via pela frente não atrapalhou o charme do pensamento positivo na meteorologia virtual, fiel escudeira de Matilda e Clívia. Logo nos primeiros minutos do amanhecer, já estavam trocando mensagens pelo aparelho da modernidade, ansiando acabar as obrigações que tinham antes do passeio combinado meses atrás.

Amigas de fé, elas haviam combinado uma romaria em prol dos pedidos alheios, não deixando de considerar os próprios, que acabaram logo cedo no bolso de cada uma, enrolados em um papel de padaria formando a lista interminável de súplicas e agradecimentos. Eram conscientes de que não bastavam ter fé, mas era preciso vivenciar. E por isso resolveram juntar-se a um grupo de romeiros que costumavam visitar as cidadelas religiosas algumas vezes por ano. Compraram duas passagens, e assim esperaram dia a dia o momento da partida do motor da van que as levariam quilometro por quilometro pelas estradas sinuosas e longas que cortavam as cidades próximas que separavam a capital do interior.

Matilda arrumou a mala com antecedência. Preparou o chocolate para ela e a amiga (chocolate foi e voltou no mesmo lugar), colocou as roupas em uma mala de viagem compacta e os apetrechos pessoais na própria bolsa de mão. Ela só não lembrou que o espaço seria pequeno para as encomendas feitas pela tia que também estava feliz por sua sobrinha aceitar a encomenda e pedidos, mesmo sabendo que seria difícil trazer de considerando a distância do local. Aqui faz-se necessário um esclarecimento para explicar que as pessoas acham que quem vai à uma catedral tem a capacidade de fazer milagres e solucionar coisas desconhecidas dos mais próximos. Isso é fé. Sendo assim, Maria não só listou todos os pedidos que juntos davam 32, mas também fez a lista de compras para Matilda trazer da feirinha local. Matilda não tinha o hábito de recusar, e colocou os papeis diversos nos bolsos, além da lista já citada, já imaginando como seria rezar, ir a feirinha, caminhar pela catedral pagando promessa de Maria e ainda mandando celebrar a missa para ao seu irmão curar do stress que ultimamente vivia. Sim, Aldoh não era muito religioso, mas sempre falava com Matilda: “Não esqueça de pedir por mim”.

Clívia passou pelo dia daquela sexta-feira que nem um furacão. Foi para um lado, foi para o outro, torceu roupa, trabalhou no computador, teve reunião de negócios e, quando chegou em casa por volta de quatro e meia da tarde, lembrou que esqueceu de arrumar a mala e só tinha algum tempo para fazer isso, tomar banho, fazer os sanduíches para viagem, colocar água nas plantas e ainda dar os telefonemas do dia. Mais do que depressa deu um pulo da cadeira e começou a arrumar tudo. Durante umas duas horas e meia ela correu a própria maratona dentro de casa que era mais ou menos assim: corre na cozinha pra por pasta no sanduíche, tira roupa da máquina de lavar, pega o varal que caiu no chão, tira sacola de viagem, procura sombrinha, toma banho, troca de roupa, liga computador, procura lista de reflexões que havia feito para ela mesma, volta na cozinha, embala os sanduíches, separa a roupa de dormir pra levar, volta no outro quarto e por aí vai. Foi quando ela observou que tinha prometido para si mesma acender uma vela quando chegasse lá. Ela fora criada com influências de mais de uma religião e respeitava a crença de todos. Clívia era uma pessoa de muita fé e sempre que podia também fazia suas orações para as pessoas próximas no intuito de ajudá-las de perto ou de longe. A lista de Clívia parecia lista de supermercado. Resumindo: Matilda e Clívia se encontraram na hora combinada e as listas das duas parecia escalação dos times do mundial de futebol de tanto pedido de um e de outro, encomendas e afazeres de fé que elas se propuseram. Religião à parte, chegaram no ponto de partida onde a van iria pegá-las, juntamente com outras pessoas formando um grupo coeso e participativo.

A van chegou na hora marcada, porém não era exatamente o que haviam imaginado. Era uma van pequena. Entraram as duas todas animadas, carregando as malas. Quer dizer, Clívia entrou carregando as malas, pois Matilda não conseguia colocar a mala dela na van, tamanho peso. Clívia teve que se desvencilhar das quinas das poltronas dos corredores e ajeitar-se cautelosamente para não esbarrar em todas as pessoas, já que seu lugar era na parte de trás. Boa noite para todos e as duas sentaram nos lugares indicados, colocando a bolsa de Matilda entre as pernas (isso demorou um pouco porque Matilda socava a bolsa para debaixo até que ela coube igual sardinha enlatada) e a bolsa de Clívia embaixo da poltrona, porque ela resolveu levar também um cobertor e uma necessaire gigante que atrapalhava o encaixe perfeito das coisas em seus devidos lugares. Todos a postos, passagens conferidas e aonde estava o motorista? E realmente não tinha.

Neste caso Matilda e Clívia ficaram extremamente incomodadas quando perceberam que a situação era conflitante. Será que o rapaz esquecera da viagem ou estava atrasado? A van pertencia à uma empresa de viagem e o motorista fora contratado separadamente.

Para não criarem nenhuma desavença e não serem chamadas de assustadas, resolveram dar uma chance para a espera e ali começou a romaria das duas. Logo em seguida o motorista chegou esbaforido, alegando que dormira a mais durante o fim de tarde, mas que já estava a postos para o evento.

A van saiu com atraso e lá foram elas, juntamente com as outras 8 pessoas que as acompanhavam nessa saga. Primeiro fizeram o nome do Pai em sinal de respeito e fé. Depois acompanharam o terço que foi rezado pelos integrantes do grupo para a proteção da viagem. Clívia já começou a querer rir. Além de ser dispersa, ela sempre diz que não sabe o motivo pelo qual quando alguém começa a cantar com a voz mais aguda, ela tem crise de riso sem nenhuma intenção específica. Somente dá a crise e ela dispara a rir. E foi quando descobriram que as passageiras ao lado tinham um timbre de voz mais alterado. E assim, com vozes alteradas e de taquara rachada em exercício, as ditas cujas ficaram até tarde, cantando ali ao lado, durante as curvas e o pé d’água que caia estrada de chão de asfalto para o desespero das duas amigas que haviam esperado desassossegadas durante semanas. Clívia olhava para Matilda e só o que ela via era Matilda fazendo o nome do Pai um atrás do outro para reforçar a fé e pedir paciência e tolerância e calma para não ter um piripaque antes de chegar no destino. Matilda tinha medo de viajar à noite e só de escutar o ranger dos motores sussurrava para si mesma: Ai meu Deus do Céu! Tenha piedade de mim! Clívia não sabia se ria de Matilda ou se juntava a ela nas orações de pedido de socorro. A viagem corria solta, assim como os passageiros e as duas personagens da lateral que não paravam de cantar. Era mais ou menos assim: -Fulaaaaaano! E cantavam mais um verso.- Oh ddiaaaa! Chama o amanhecer!!!!! E a música não parava. A seguinte disposição fazia-se: elas nas primeiras filas, Matilda e Clívia nas poltronas quase no fundo e mais algumas pessoas que contavam caso sem parar, incluindo um rapaz jovem, que viajava pela primeira vez para uma via sacra. Era caso de que tinha “sentado” a mão no fulano, que tinha não sei o que do marido da prima, e quanto mais falavam, mais aumentava as vozes cantantes que resplandeciam na van, que estava com as janelas fechadas por cauda da chuva torrencial.

De repente, uma criança que estava no colo de uma moça na primeira fila começou a chorar e aí que a confusão estava armada, pois teve gente interferiu no choro, opinando sobre o que fazer com a criança, além de querer saber o que estava acontecendo com o menino, trazendo sugestões de trocar fralda, dar “de mamá”, e outras coisas mais que nem cabe comentar. As duas senhoritas dos bancos ao lado então resolveram falar mais alto e cantar para embalar a criança. E ainda pediram para todos ajudarem a embalar o neném. A mãe, pensando que a criança de um ano e pouco estava faminta abriu uma bolsa que continha um pote de tamanho médio e começou a tirar coisas de dentro. Era coxinha, biscoito de polvilho, suco e mamadeira.

O furdunço total já estava instalado. Foi quando inesperadamente a passageira de trás ao lado de Matilda grita no ouvido dela dando um tapa na cabeça dela: -Fecha aí que está chovendo aqui!!!, indagou reprimindo o fato de a janela da direita estar com uma fresta aberta. Foi o que precisava para Clívia descontar o nervoso na segunda crise de riso inacabada da viagem. Clívia não sabia se ria ou chorava, se comia o sanduíche de atum com geleia que havia preparado ou esperava a primeira parada para tomar um ar. Sim, isso tudo foi antes da primeira parada na estrada. E as duas colegas do lado não paravam de falar debaixo daquela luzinha que fica acima da cabeça na van. E elas justificavam para Clívia que estavam tentando distrair-se do medo. Em muito pouco tempo Clívia e Matilda já sabiam todo o repertório musical além da vida do bairro onde o rapaz morava. Matilda só faltava surtar. Ela colocava a mão no rosto pensando que se tivesse feito a romaria a pé talvez chegasse mais leve dos pecados lá na cidade abençoada.

Finalmente a primeira parada chegou. Desce gente, volta para pegar casaco, tira bolsa, busca água, fala do cheiro de cloro do banheiro e assim se sucedeu por todo o tempo que a van ficou parado na lateral do posto. Porque o motorista, por medo ou precaução resolveu estacionar lá-na-fren-te, fazendo todo mundo andar pela multidão de gente que havia no estabelecimento. Era igual formigueiro. Matilda e Clívia não conseguiram nem ir ao banheiro e nem mais nada porque nessa altura do campeonato nem sabiam mais o que fazer, já que a viagem estava apenas começando. E ainda lembravam que o rapaz tinha falado que queria comprar a feira inteira no dia seguinte e voltar com a caixa de refrigerantes de latinhas geladas.

Anunciada a continuação da viagem, lá se foram elas, Matilda e Clívia olhando uma para a outra já cansadas da ladainha lateral, dianteira e traseira. E assim foi até a cidade destino, ora levavam um grito de susto, ora um caso de vizinho e ora um pedaço de qualquer coisa que era distribuído para os passageiros.

O sol apontou na estrada e após a próxima curva a cidade do interior resolveu dar o ar da graça e da luz. A van estacionou em frente a pensão, que por sinal era muito boa, de respeito e com uma comida caprichosamente feita. E é aí que Matilda e Clívia descobriram que as amiguinhas ao lado seriam amiguinhas e vizinhas de quarto. Mas graças ao primeiro pedido do dia houve um erro e elas foram parar no andar de cima, de onde se avistava a rua, o trânsito e a praça que separava a rua do centro da cidade.

A ideia era tomar um banho, pegar as listas dos bolsos e ir direto à matriz fazer os pedidos e agradecimentos. Assim fizeram, além de entrarem de lojinha em lojinha procurando umas coisas que quem ficou para trás havia pedido de última hora para Matilda. E Matilda queria também levar umas lembrancinhas para casa. Chegaram então na rampa da matriz e as duas amigas resolveram ir direto encomendar as velas. Já que era para agradecer e pedir, então que fosse feito com toda a coragem e devoção. Clívia logo pediu oito velas, sendo cinco para ela. Queria dignificar sua fé, mesmo sabendo que diante dos santos isso não era tão necessário, pois eles escutariam com uma vela pequena apenas. Mas ela saiu feliz com as velas nas mãos. Tirou foto e tudo para registrar o fato e ainda teve que carregar as de Matilda, que além das velas para ela, comprou as de Maria que eram de encomenda. Encomenda para levar na van e com recomendações de não quebrar de jeito nenhum. E lá ia Matilda, também com vela na mão, selfie no celular e a lista de pedidos que não acabava mais. Clívia teve que ajudar até rezar, porque se deixasse só por conta de Matilda, a igreja fecharia antes dela acabar a reza, já que a lista de pessoas era imensa. Tanto que as duas saíram até cansadas de tanto pedir e fazer os devidos agradecimentos. Era pai nosso e ave maria que não acabava mais. Acende vela, reza, acende vela, reza, mas após o rosário, a ladainha e as orações elas estavam felizes da vida. Leves e saltitantes na terra de fé e abrigo dos romeiros.

Fizeram um lanchinho básico para recuperar as energias e rumaram para a segunda parte da peleja: tentar trocar com o motorista as duas passagens de volta na van, porque a data estava errada na passagem delas. Tiveram sorte e, tirando o rapaz da recepção da pousada, que olhava por cima dos óculos de forma engraçada, a troca transcorreu bem e com muita sorte o motorista estava sentado no saguão naquela mesma tarde.

Saindo da pousada, passearam pela tal feirinha. Matilda comprou a feirinha inteira, incluindo as encomendas de Maria e também de Aldoh, que era um sujeito restrito, mas com pedidos muito peculiares. Feirinha vai e vem, voltaram para o dormitório.

No dia seguinte, as duas já não aguentavam mais de tão cansadas, mas pelo bem geral da amizade foram e voltaram várias vezes pelas barracas da feira, pois Aldoh enviou uma mensagem com alguns outros pedidos. E Matilda ainda comprou mais umas coisinhas que havia esquecido da lista de Maria. Nessa altura do campeonato, Clívia carregava em mente o santo, a vela e a lista de Matilda com a promessa de Aldoh, que ainda estava no bolo mesmo após já terem acabado a reza. No caminho de volta resolveram sentar-se no bar que ficava no meio do percurso e que estava tocando uma música animada. Já haviam rezado e então, já com a penitência em dia, resolveram brindar. Conversa vai, conversa vem, e a música havia sido substituída por um pedido de música romântica na vitrola de ficha, outra do tempo do onça e aí foi quando começou o a serenata. As duas moças da van estavam também no bar, já que a cidade era bem pequena e sem muitas opções de diversão. Elas logo cantaram o refrão numa altura que o bar inteiro olhou. Elas não se abalaram e, nas suas autenticidades, cantaram e dançaram com os braços. Clívia não parava de rir, porque a letra da música era engraçada e com gírias e as três da terceira idade que estavam na mesa ao lado não haviam se dado conta do que a música falava. Elas só estavam se embalando e rindo ao ritmo da canção. Foi quando Matilda, por um segundo, prestou atenção na letra e, assustada com o que havia escutado exclamou em bom e claro tom: -Ele falou “gíria”?????? Clívia quase morreu de tanto rir e também as senhoras idosas, porque ao falar a palavra “gíria”, a dentadura de Matilda descolou por causa de uma quebra-queixo que ela havia devorado alguns minutos antes do bar e saiu quase pela metade da boca dela. E la´se foi a cautela religiosa. O que se via a partir disso era somente gargalhadas e lágrimas de risos de quem percebeu a cena. E a cena foi registrada eternamente na cabeça de cada uma que depois desse inusitado acontecimento decidiram tomar mais um suco, pediram a conta e retornaram para a pensão em meio a gargalhadas, velas e santos. E Clívia para variar carregando as encomendas e pacotes das mais velhas em sinal de respeito e amizade, pois as senhoras estavam hospedadas na mesma pousada. Quem olhava para ela na rua não sabia se “trupicava” ou cambaleava pelo desajeito de carregar tanta coisa sob o efeito da rizaria. Elas só riam e falavam: -Rezar e gargalhar, esse é o resumo da prosa.

Matilda e Clívia chegaram na pensão, comeram seu jantar no refeitório, arrumaram as malas que nem desarrumaram, andaram tudo de novo a pé até a rodoviária que ficava de-pois-da-fei-ri-nha numa rua adjacente à uma certa distância e desmontaram nas cadeiras que ficavam no saguão da pousada. Ficaram ali até o dia terminar, conversando com as senhoras que também pareciam se divertir. Já no quarto que cabia quatro pessoas, ao se sentarem na cama, tiraram as mantas para cobrirem as pernas, começaram conversar com as duas companheiras de quarto, rindo sem parar e, tentando não incomodar os quartos vizinhos. Quando uma não começava a rir, a outra começava. E assim ficaram durante um bom tempo, até que Clívia rapidamente indagou: Matilda!! Cadê a vela??? E Matilda mostrou o pacote de velas de Maria encostado ao lado da sacola que estava em uma cadeira. Encomendas em ordem, missão cumprida e lá se foram as duas amigas dormir, prometendo uma para a outra que iriam tirar férias das listas de rezas e encomendas por pelo menos uns bons tempos.

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