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  • Paula Brandao

Matilde Sofia - Árvore genealógica


Tudo começou quando uma tia já bem idosa da mãe de Matilde Sofia foi visitar a família nas vésperas de um feriado prolongado. O pai de Matilde Sofia era fã dessa senhora e sempre que encontravam, permaneciam horas trocando informações sobre as duas famílias e tentando desvendar os mistérios dos antepassados remotos, mesmo sabendo que era impossível saber muitas coisas, já que essa tia não tinha muitas referências da parte dela e os pais dele também nunca falaram muito sobre o assunto.

O fato é que Matilde Sofia, em uma terça-feira na parte da tarde, começou a pesquisar um site na internet e resolveu colocar algumas informações básicas sobre as referências que escutou até então. Ela, assim como o pai, tinha bastante interesse nas raízes familiares e sabia que parte da família do pai, bem distantemente, havia imigrado da Europa por motivos pessoais e buscado desbravar o novo mundo daquela época, que ela também não sabia exatamente quando era.

Quando criança, Matilde Sofia havia desenhado várias vezes uma árvore com quadradinhos nos galhos e costumava colocar desenhos de pessoas e amigos que ela gostava, mostrando orgulhosamente aos pais os desenhos. E agora em era mais tecnológica ainda, decidiu reproduzir as artes de forma digital.

Assim que ela achou o site que parecia confiável e completo, pegou um papel e desenhou mais uma vez a árvore. Colocou os nome dos pais, dos avós, dos tios, primos, tios avós, esposas dos primos, maridos das primas, os respectivos filhos de todos e ainda incluiu os bichos de estimação de alguns deles, que resumiam-se em três cachorros, começando pelo dela, quatro gatos, o papagaio da amiga, cinco pássaros, duas ovelhas e um cavalo que ficava no sítio de um parente distante. Desenho pronto, iniciou a relação de grau de parentesco, desenhando linhas de cores diversas, para identificar os lados diferentes da família, verde para a família da mãe, azul para a família do pai, amarelo para os que nasceram a partir do pai e vinho para os que nasceram a partir da família da mãe. Para finalizar e diferenciar o mapa estratégico, incluiu um marcador de texto nas linhas que constituíam os antepassados. Terminado o gráfico, registrou tudo em uma legenda de cores e características de personalidade para cada família, explicando o traço principal marcante de cada uma delas. Uma era atordoada, outra alegre, outra comunicativa, outra desorganizada, outra assustada, outra encrenqueira, outra desvairada, outra pacífica e assim por diante.

Enquanto fazia as conexões, pesquisou os conceitos sobre a importância da árvore genealógica, a história familiar do sobrenome, os brasões referentes e uma lista de cidades prováveis do nascimento dos avós, bisavós e supostos tataravós dos dois lados.

A tia de Matilde Sofia, vez ou outra, confundia os parentes, pois a família era grande e as lembranças mais remotas difíceis de serem retomadas, já que ela morou no interior a vida toda e não tinha tanta habilidade com informações, apesar das longas conversas com o pai de Matilde Sofia.

Finalizado o emaranhado, era hora de começar a digitar tudo no site escolhido. Começou pelo nome próprio, os dos pais e dos avós paternos e maternos. O site era em formato diferente e possibilitava a inclusão também dos filhos, netos e etc. O problema foi que, ao digitar os nomes dos avós, o site apresentou uma lista de prováveis ancestrais, que não coincidiam com as informações que ela possuía, exceto o nome de um tio, irmão da tia de Matilde Sofia, que fora adotado, não tinha registro aparentemente e constituía parte da árvore genealógica, porém por parte de pai e não de mãe.

Matilde Sofia olhou para a tela e, ao clicar no nome dele, o site configurou uma rede de parentesco inusitada, deixando Matilde Sofia encabulada ao ver o nome de uma das primas como sendo o mesmo de uma das tias avós do pai, sendo que ele nunca havia falado de uma pessoa com nome tão coincidente e, segundo ele, essa prima não era consanguínea. Ela olhou para a tela e intercalou o olhar vinte e cinco vezes com o mapa desenhado, pois na cabeça dela alguma informação não estava adequada.

Neste momento, o amigo de Matilde Sofia chegou na casa dela, trazendo uma lista de mais doze pessoas que ele havia encontrado online, já que ele era interessado nesses assuntos e resolveu ajudar Matilde Sofia na busca da ancestralidade. Quando ele olhou para ela, ela estava estática com os olhos arregalados fixados no computador. Ele, tentando confortar a amiga diante da dificuldade, verificou qual informação havia deixado a amiga aturdida. Neste exato momento, ele sentou na cama de Matilde Sofia chocado. Pelo site a família de Matilde Sofia era mesmo inusitada e eles decidiram que aquela informação seria sigilosa e que jamais comentaria o fato com ninguém.

E Matilde Sofia ficou assim, olhando para a tela do computador, enquanto segurava a árvore genealógica desenhada na mão que, em resumo, continha os pais, os avós, os bisavós, os tataravós e mais duzentas e cinquenta e oito pessoas, além dos animais de estimação e um rabisco que representava a vizinhança local do bairro. Na tela do computador ficou apenas a expressão “acesso ao panorama codificado permitido”, que apareceu após ela pressionar “enter” duas vezes em um detalhe inimaginado, porém revelado ali, quando ela incluiu o nome Margarida Hepaminondas Judite.

Fim do caso.





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