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  • Paula Brandao

A companhia do lado esquerdo


Toda viagem tem os seus prós e os contras também. Principalmente os contra o sossego de quem está ao lado. Pegar um avião, ônibus ou até mesmo carona em uma viagem não é tarefa fácil. No caso de algumas pessoas é um pouco mais simples. Elas abrem a mala, colocam seus pertences e fecham a mala sem a menor cerimônia. No caso de outras, isso já é um pouco mais complexo. Mas isso é assunto para uma outra hora. Elas colocam as coisas nas malas e fecham com a cerimônia toda incluída. Malas fechadas, trajeto arranjado, hora de partir para a estrada, ar ou algo assim.

Vamos considerar a situação em um aeroporto. Era a primeira viagem de Matilda. Ela chegou ao check-in toda entusiasmada, doida para sentar no cantinho da fileira, fechar os olhos e.....dormir. Estranho para uma nova experiência, mas ela estava apreensiva e decidiu que iria apenas....dormir. Afinal eram dois trechos, o primeiro de duas horas e meia de voo e, dava sim, para tirar aquela sonequinha confortante e revigoradora, encobrindo a aflição estampada em seu rosto. Para não ter muitos problemas, Matilda levou uma necessaire bem pequena, que cabia perfeitamente no compartimento acima da poltrona, conforme regras internas e externas, que verificou por horas em casa. Tudo acertado, cinto afivelado, poltrona do lado esquerdo vaga até que.......no último minuto, quase ao encerramento do embarque, um sujeito aproximou-se esbaforido, com sacola, mala de mão e uma bolsa a tiracolo de se suspeitar. E, é claro, pa-ra-a-ca-dei-ra-do-la-do-es-quer-do, ao lado dela. Pronto, começava a ladainha da misericórdia.

Ele pôs a primeira mala no compartimento, a mala não cabia. Aí ele virou a mala na diagonal, empurrou um pouco, socou a outra que já estava dentro (nesse momento a mulher com a cara fechada que estava duas fileiras atrás deu um berro: “Cuidado, tem coisa de quebrar”). Ele, por causa disso e não querendo chatear ninguém, tirou a mala e tentou colocar a sacola. Não conseguiu. Tinha muita coisa dentro e a sacola estava muito volumosa. “Também, ninguém mandou levar as encomendas dos parentes”, pensou Matilda. Nesse momento chegou o comissário de bordo tentando explicar que ele deveria ter despachado as duas bolsas e ficado somente com a bagagem de mão pequena. Ele afirmou que perguntou no balcão e eles liberaram sem problemas maiores. O fato é que ele tentou mais uma vez, tirou mala da direita, colocou na esquerda, desviou uma mochila, pediu para o comissário arrumar espaço em outro lugar, até que conseguiu encaixar tudo lá dentro, socando a porta do outro compartimento, puxando a calça que já estava caindo pelo esforço e deixando uma senhora da fila do meio constrangida. Logo após a saga, sentou-se no lugar destinado à ele. Neste exato momento, Matilda fechou os olhos e pediu aos santos que tivesse sossego, pois estava com medo e não queria olhar pela janela do avião e nem para o lado esquerdo. Foi assim que, após alguns minutos, caiu na bobagem de olhar para o lado esquerdo. Foi a conta. Imediatamente, o Mr. Confusão falou aquele “oi” de quem não queria sossego, mas apenas papear. Matilda, apesar de sua vontade de descansar, deu um sorriso amarelo, o que não adiantou. Começou a ladainha da vida do homem da poltrona do lado esquerdo. Ele começou falando que atrasou, etc e que tinha medo de avião, e completou com a frase tática “ainda bem que não estou sozinho”. Matilda, que já estava agoniada, logo achou que viajar de avião era um perigo sem tamanho e estremeceu da cabeça aos pés. O avião começou a taxiar na pista e o sujeito já não parava de falar. As aeromoças já até haviam acabado de explicar os procedimentos de segurança e o Mr. Confusão já estava contando da tia da avó de um colega.

Avião em voo, meia hora depois. Já com um copo de uísque na mão para relaxar, O Mr. Confusão resolveu tirar um livro que estava na sacola e que socou no compartimento. Era para mostrar para Matilda e para o outro companheiro de viagem do outro lado a foto do guru empresarial que ele seguia nas redes sociais. Foi quando ele tirou o cinto, abriu o compartimento e ..............a sacola caiu e abriu em cima da poltrona. Matilda começou a chorar por dentro. Outro comissário veio, novamente, ajudar o passageiro desastrado a arrumar tudo, recolocar tudo no devido lugar e pedir ao equilibrista dos assuntos para sentar-se e afivelar o cinto. E alguém conseguiu dormir até aquele momento? Ninguém, nem Matilda e nem mesmo o senhor que estava na última poltrona e que não escutava muito bem. De repente, um “plim” e veio o aviso que não queria calar. Turbulência. Nessa hora, o Mr. Confusão ficou branco, pegou no braço de Matilda e começou a suar. Foram sete minutos de leve trepidação, mas uma coisa existiu naquele momento. Falta de possibilidade de qualquer dormidinha ou papo, pois o silêncio reinou em pânico, nele e em Matilda. Voo calmo outra vez e agora, ao invés da ladainha, o que se ouvia era o terço da libertação do voo. Foi quando o Mr. Confusão tirou um sanduíche de carne com pimenta (ninguém conseguiu entender como ele entrou com aquilo dentro do avião) da sacola de mão. Era algo picante e o avião inteiro ficou com cheiro de pimenta e carne temperada com alho desidratado. O pior é que tinha gente com alergia e uma família que estava logo à frente começou a espirrar. Nessa altura do campeonato, Matilda já estava quase surtando, tendo um infarto ou querendo ter pegado um voo de volta para casa.

Quarenta minutos para a aterrissagem. O piloto anunciou a aproximação e todos se posicionaram para a descida. Menos o Mr. Confusão, que resolveu ir ao banheiro, exatamente nessa hora e ainda pediu à Matilda para vigiar suas coisas. Como se tivesse jeito de alguém levar alguma coisa para algum lugar. Avião já descendo e a aeromoça foi até o banheiro perguntar se estava tudo ok. Não é que o Mr. Confusão dormiu lá dentro e tiveram que quase arrombar a porta para socorrer o coitado! Quase já na pista, ele voltou esbaforido novamente, sentou-se no seu lugar, afivelou o cinto pela quarta vez e viu o avião descendo. Sim, ele debruçou em cima de Matilda, tomou conta da vista e ainda deu um sorriso alegre de alívio. E, logo em seguida, fez o comentário que um cochilo repentino dentro de um avião fazia muito bem à saúde física e mental. Terra firme! Foi quando Matilda olhou para ele, deu um “tchau” de leve e levantou da poltrona.

Voo terminado, todos de pé e olhando para a pessoa física em evidência e ainda para Matilda, que só queria sair dali. À ela só restou ir embora. Todos foram, com caras e bocas e ainda trejeitos. Matilda saiu revoltada, jurando ir de ônibus da próxima vez.

Avião vazio, ou quase, faltava ainda o Mr. Confusão, que ao tirar a sacola do compartimento de bagagens, deixou-a cair no chão e ainda estava, junto com os dois comissários, catando a papelada que caiu de lá de dentro e esparramou para tudo que era lado, junto com alguns objetos pessoais pequenos que levava para uma parenta da prima da amiga de suas irmãs. E Matilda precisou perguntar ao comissário qual era mesmo o destino, pois depois de tanta confusão, ficou na dúvida se estava no primeiro ou segundo trecho da viagem. Ao sair, rezou para o próximo voo.

Desembarque finalizado! Era hora de pegar a conexão!

E não é que o Mr. Confusão estava indo para o mesmo lugar que Matilda! Socorro!

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