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  • Paula Brandao

Matilda - Celular novo


Um celular novo. Sim, novíssimo! Nada de tecnologia antiga, suas partes não passavam nem perto dos primeiros fabricados ou do modelo que possuía, era capaz de ultrapassar fronteiras entre países e, para completar, as opções de idioma eram várias, diferente do anterior que continha português brasileiro ou só português. Matilda estava empolgadíssima! Pausa. Mais uma pausa longa para entendimento e reflexão. Mas tinha caroço nesse angu.

Matilda foi observando, em uma retrospectiva, as coincidências da vida. Nessa terra de ninguém, alguém e mais um outro alguém, dois celulares com características semelhantes, o antigo e o novo. Ex: Matilda mandou uma mensagem, a mensagem voltou, então, logo após, enviou outra ou repassou a mesma (porque ela era insistente e querrrrrrrrrrriaaa que a pesssooooooooooaaaaaaa recebesse a mensagem logo). Continuando. A mensagem ficou com os dois palitinhos cinzas indicando que quem estava do outro lado não recebeu. Então, ela repassou com o copiar e colar e a mensagem foi entregue. Foi, igual a vaca foi para o brejo. Nas próximas tentativas ela gravou um vídeo e a pessoa disse que não estava escutando os áudios. Novamente, ela reenviou e, desta vez, o ouvinte disse que o celular de Matilda era ruim e que era para mandar escrito mesmo, pois o celular não recebia os áudios dela (por que a recebedora não falou isso desde o princípio? Estaria de implicância? Hein? Hein?). Matilda voltou no comando indivíduo enviando qualquer coisa e escreveu tudo de novo, para ter certeza de que não esqueceu nenhuma vírgula, ponto de exclamação, aspas, travessão ou qualquer outra figuração de linguagem. Apertou o “play” e.......foi......palitinho azul, palitinho azul, palitinho azul.......e.... palitinho azul! E neste exato momento a pessoa ficou off-line. Lá se foram os mil minutos de inspiração, poesia e dedilhado. Matilda ficou com cara de tacho olhando para o seu celular, sem acreditar que depois deste esforço colossal, a pessoa não iria ler a mensagem. E era urgente! Matilda refletiu sobre o celular, que era novo, porém estava, digamos, pelejado.

O dia passou, todas as estações do ano se apresentaram em menos de 24 horas e Matilda resolveu pousar o seu amiguinho de lado e ir dormir. Já era meia noite, o dia seguinte prometia e era melhor não se deixar levar pelo fervor do mundo tecnológico. Mas bastou cobrir a cabeça com edredom favorito que o celular apitou fiu fiu fiu fiu fiu (nessa parte favor imaginar a musiquinha do celular quando você recebe uma mensagem). Matilda prometeu a si mesma que, naquele dia, as horas conectadas estavam finalizadas e somente no dia seguinte iria ver o mini texto. Mentira pura. Mais do que depressa, ela remexeu na cama, aliás, era preciso retirar a coberta e levantar, pois ela resolveu deitar mais para o canto e, com isso, o fio do celular não estava ao seu alcance. Fiu fiu verificado, alívio no peito e a-pessoa-pediu-para-ela-escrever-tudo-de-novo-porque-o-filho-tinha-acabado-de-mexer-nas-teclas-e-todas-as-mensagens-do-dia-foram-perdidas.

Matilda perguntou-se nessa hora: xingar ou surtar? Nenhuma delas, apenas juntar novas letras tim tim por tim tim e apertar o botão “enviar”. Dessa vez não teria erro. Ufa! Foi. Silêncio. Pausa. Silêncio. Outra pausa. O silêncio reinava. Dormir. Matilda retomou sua posição de estado dorminhoco e fechou os olhos. Fiu fiu fiu fiu fiu fiu fiu fiu fiu. Celular disparado na função corpo de bombeiros.

“Chega por hoje”, pensou. As letras cansaram. “Vou dormir”, pensou mais uma vez. “E ai do meu celular se continuar disparando”, concluiu Matilda.

Uma curiosidade infinita tomou conta do seu ser. Ela sentou-se na cama, apanhando o celular. Finalmente, mensagem enviada. Mas, ao virar o aparelho, descobriu que o modelo era e-xa-ta-men-te-i-gual-ao-que-ela-tinha. Ou seja, na hora de fazer a compra, havia comparado o modelo que ela tinha com um modelo mais recente e acabou clicando no modelo errado. Estava explicada a vagarosidade e dificuldade tecnológica. E o que restou disso tudo? Dormir, pois a mensagem ficou perdida na noite, já que não houve resposta e Matilda teria que lidar com o fato de ter dois celulares iguais no dia seguinte.

Seria coincidência ou apenas distração? Fim.

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