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  • Paula Brandao

Matilda - Numerologia


Matilda sempre foi uma pessoa autêntica, porém um tanto supersticiosa. Não passava em baixo de escada, pois sua tia dizia que dava azar, andava com um trevo de quatro folhas pendurado na correntinha para atrair coisas boas e todas as vezes que a orelha direita coçava, ficava feliz, pois sabia que algum elogio havia sido feito para ela. Sua mãe dizia que ela era exagerada e ela confirmava batendo na madeira, não três, mas cinco vezes quando algo a incomodava e também fazia o nome-do-pai quando algo significava credo em cruz na conversa. Moderna e arraigada de tradicionalismos saudáveis, Matilda estava sempre renovando seus pensamentos.

No dia que saiu do shopping center com a amiga, Matilda viu uma placa onde estava escrito “Numerologia” e percebeu como um sinal para alguma mudança. Automaticamente lembrou da amiga que era adepta da arte desse saber e logo enviou uma mensagem para ela, requisitando ajuda no caso.

As duas se encontraram na casa da amiga e Matilda levou consigo as anotações que fizera em um caderno, tentando ajudar a amiga na tarefa difícil de trocar seu nome. A amiga questionou um pouco, pois todos gostavam do nome Matilda, mas foi convencida pela determinação e vontade de Matilda.

As anotações constituíam-se em: uma folha com um desenho detalhado de cada letra em caligrafia arcaica, que Matilda copiou de um caderno antigo achado em casa, acreditando ser importante o desenho; uma descrição de cada letra de seu nome em outros nomes para explicar alguns significados históricos que provinham de outras origens, segundo ela; um conjunto de combinação de letras + letras, letras + números, números + letras, números + números, seguidos das operações matemáticas de adicionar, subtrair, multiplicar e dividir, para que nada fosse esquecido nas contas; duas páginas com as justificativas de mudança do nome, sendo que para cada letra ela criou um conceito lógico e abstrato, tentando adivinhar a eficácia do nome de origem; quatro desenhos em cores, buscando combinar os tons, caso precisasse fazer alguma arte com o nome que seria antigo, em breve; dois poemas de rimas desconjuntadas, assimilando os sons do nome atual em combinação com alguma parte que pertenceria ao novo nome, em rima de M com T e de D com A, seguido de L em final de frase para quebrar o ritmo da própria rima; duas páginas de frases com o nome Matilda, no estilo cópia de caligrafia, cujas frases “Matilda vai trocar de nome” e “Qual será o nome de Matilda” estavam grifadas para mostrar a importância delas na situação em questão; um conjunto de adjetivos para cada letra, com setas indicativas para o nome atual completo escrito, na intenção de refletir a própria personalidade, ajudando a amiga a colocar as características principais no próximo nome; duas indicações de vídeos falando sobre numerologia, pois ela respeitava profundamente o conhecimento da amiga e estava apenas fazendo sua parte na difícil tarefa do nome perfeito; cinco sequências de provérbios que ela gostava, para que o próximo nome, ao ser soletrado, gerasse um sentimento de sabedoria e bom ânimo a quem ouvisse o som das letras; e finalmente uma frase final, onde perguntava para a amiga qual seria a solução para seu problema.

A amiga de Matilda era uma pessoa sistemática ao extremo e pegou todas as considerações escritas no caderno, sem saber exatamente o que fazer com aquilo tudo, pois sabia que fazer uma troca como aquela requeria tempo e dedicação e estava perplexa com o que acabara de ver. Então, diante da pesquisa aprofundada e sem lógica de Matilda, a amiga começou a gaguejar, tentando se desvencilhar da confusão de seus pensamentos naquele momento. Não queria decepcionar Matilda e, ao mesmo tempo, não teria como fazer um cálculo baseado na extravagância das análises ilógicas. Era doidice!

Adendo: assim como em todas as sabedorias, uma porção de sorte vem no momento infinitamente correto. A amiga de Matilda morava em um prédio cujo vizinho de porta tinha um papagaio. Era um animal dócil, criado dentro das regras legais cabíveis para sua adoção e domesticação. De tempos em tempos, ele dava o ar da graça, gritando algo que lhe fora ensinado ou que provavelmente escutava na rua. Na hora em que a amiga de Matilda olhou para ela com cara de quer queria sumir do ambiente, o papagaio, com seu rotineiro jeito animalesco de ser, gritou em alto e bom som “ehh Sofiaaa eh Sofiaaa”, que era o nome da cunhada da irmã da namorada do vizinho. Imediatamente, as duas amigas entreolharam-se, como que em um passe de mágica e, ao mesmo tempo, sincronizando letra por letra, pronunciaram: Matilde Sofia.

E a mãe de Matilda, que não estava sabendo da confusão do dia e, mesmo já sabendo da decisão da filha, após as duas tecerem longas conversas sobre o fato, ficou boquiaberta, quando as duas amigas chegaram na casa de Matilde Sofia, com um bolo comemorativo, anunciando a novidade.

Quanto à numerologia, a amiga de Matilde Sofia iria fazer, durante a semana, cuidadosamente e com calma, a interpretação do novo nome completo, assim como a representação da data de nascimento e das atitudes em relação à sua personalidade.

E viva o papagaio!

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