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  • Paula Brandao

Matilde Sofia - Filosofando


O que dizer do dito pelo não dito? Neste caso foi muito bem dito, ou melhor, talvez não dito.

Foi assim que Matilde Sofia iniciou o assunto com sua amiga que gostava de embrenhar em conversas de profundidade respeitada. Acordara inspirada e foi até a casa da amiga. Precisava dividir suas dúvidas e suas certezas sobre as discussões que participava vez por outra.

Afirmou Matilde Sofia que certos praxes não viravam praxes à toa. São fundamentados em livros e muitas palavras. Então uma história de um fato: sair de casa para ver as palavras se juntarem em uma reflexão, discurso ou conversa. Periodicamente era convidada, com garantia de um bom papo, biscoitos e roda de opinião. Sempre com um mesmo amigo maneiro, de boa prosa e verso, no mesmo local.

Percebia ao adentrar, na sala do apartamento, que quando falava, um outro sujeito retrucava. Não se entendiam. Além deles, o amigo primeiro não largava do pé do Zé. Convidava-o para as sessões de “filosofar”. Todos os participantes da vez eram reunidos e encorajados à criatividade entre um belisco e outro. Sim, uma noite de trocas de filosofias particulares nunca era para qualquer um. Era só para quem possuía muitas cores impressas no pensamento. O Zé e Matilde Sofia eram figurinhas repetidas. Sempre que encerrado o evento, havia o "pernas para que te queria", sacola no ombro em suas devidas despedidas e Matilde Sofia sentava em um bar com o amigo, a fim de concluir os pensamentos explicitados no encontro.

A amiga de Matilde Sofia estava inerte.

Matilde Sofia continuou relatando que lá foram eles para o recinto ameno e de praxe. Lá, as mesas tinham duas cores e o chão alguns níveis. Sentaram-se na mesa do fundo, mas como praxe era praxe, trocaram logo depois para uma com vista panorâmica. Dali podiam ver os carros passarem em meio ao trânsito imaginário. Naquele local havia uma TV moderna, daquelas difíceis de se encontrar em locais públicos.

Matilde Sofia discursou. Falou sobre ética, pensamentos, comportamentos, ações e etcs. Foi aí, então, que o dito foi dito e o não dito, não. Duas pessoas chegaram e acomodaram-se ao lado. Na mente dela eram, pela proximidade das mesas, quatro pessoas, trinta falas. Sim, explicações e aprofundamentos artísticos e cotidianos em um emaranhado de linhas fazendo rotas de sons confundidos.

Foi quando começou uma arruaça futebolística e Matilde Sofia logo indignou-se com o fato em si, em dó e em bemol, fatos discutidos anteriormente no apartamento.

A amiga de Matilde Sofia permanecia intacta.

Entre telas e pensamentos humanos, ou até mesmo entre histórias de sexo, gênero literário e esportistas consagrados, um discurso engrenou na junção das mesas. Não havia entendimento, era cada um em sua filosofia, explicando-se, uns para os outros e os outros para uns.

Matilde Sofia tentou concentrar-se nos assuntos abordados, mas alguém ao lado gritou tão alto que a única coisa que ela viu foi o amigo rindo da sua humilde insatisfação com relação aos fanáticos torcedores e os filósofos confusos. Havia um jogo de futebol sendo exibido, que quebrava a linha filosófica.

O amigo ria, pois abstraiu após certa parte. E, depois, abstraiu totalmente.

Matilde Sofia continuou a conversa e novamente seu tímpano deu eco. Bebeu mais um gole do líquido do copo e esperou o próximo assunto.

O tempo passou e parou......nos agitos . Terminados os papos, disseram as verdades verdadeiras de cada um e rumaram a partir dali, cada um para seu lugar. Matilde Sofia voltou indignada, mas ao mesmo tempo, feliz e satisfeita, em meio aos ainda praxes; e nem precisava mais disfarçar o dito e o não dito. Disse tudo. Ninguém entendeu nada.

No meio do caminho, alguém buzinou....... grito torcedor. Ponto final. E ela ficou só com os praxes. E o não dito.

Quando finalizou o relato, esperou a amiga dar o parecer.

A amiga afirmou: está dito.

E Matilde Sofia resolveu detalhar melhor o caso, pois considerou que a amiga não havia captado a sua mensagem.

De praxe ou não foi dito?

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