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  • Paula Brandao

Matilde Sofia - Liso ou anelado


Matilde Sofia nasceu privilegiada. O cabelo quase na cintura era puro sinônimo de elegância e beleza, e causava inveja em algumas pessoas quando ela passava nas redondezas de seu bairro, indo comprar algo logo cedo pela manhã. Qualquer que fosse a temperatura ou o clima, a cabeleira dela reluzia em acomodação matinal. Era liso, castanho quase preto e naturalmente se ajeitava no cocuruto. Bastava jogar para frente, abaixando a cabeça e trazendo de volta, para que sua peruca natural estivesse penteada ao acordar. Mas, mesmo com toda essa facilidade, ela afirmava que toda manhã era a mesma peleja.

Matilde Sofia tinha uma amiga, cujos cachos precisavam ser feitos no salão, tamanha rebeldia, e o sonho dela era poder ter cachos do meio do cabelo até as pontas iguais aos da amiga, e, então, juntamente com a amiga, resolveu ir até o recinto para embelezar-se por um dia.

O cabelereiro da amiga era um rapaz jovem, conceituado no bairro e talentoso por natureza. Quando viu Matilde Sofia adentrando seu salão, perguntou a si mesmo, em silêncio, o que ela poderia desejar, já que no conceito dele o cabelo dela era a perfeição dos lisos. Ao descobrir o desejo dela ter cachos firmados, o rapaz começou a tremer internamente, pois sabia que era impossível realizar tamanho sonho. Mas, na tentativa de ser gentil, aceitou o desafio que se deu mais ou menos da seguinte forma: uma seleção de xampus foi feita, baseada no PH do cabelo. Selecionou um creme para cabelos lisos e os produtos adequados para a lavagem. Enquanto lavava, pensava na forma dos cachos e ajeitava o próprio cabelo com as mãos molhadas, de tempos em tempos, demonstrado nervosismo. Matilde Sofia, por sua vez, descrevia o sonho dizendo que gostaria de ter linhas desenhadas a partir da raiz do cabelo, com tons mais claros do que o natural, em degradê do mel até a cor mais escura, puxando para o quase preto e intercalando com o castanho natural de nascença. Na parte de traz, ela desejava cachos mais definidos e definitivos, criando volume nas pontas, mas não muito, para que não ficassem desconjuntados com o formato meio triangular do seu rosto. Um corte talvez fosse necessário para ajeitar o formato do cabelo, criando um repicado intrínseco em um quase “V” quando observado de trás o cabelo. Na lateral direita, pretendia um cabelo mais despojado, com fios de mel contornando as maçãs do rosto com cuidado suficiente para não clarear demais e empalidecer a pele clara. Na lateral esquerda, gostaria de um cabelo mel para escuro, mais definido e de forma que, se deixasse de lado os cachos ficariam fixos nas pontas e se partisse o cabelo ao meio, parte do volume da esquerda viria para a direita, criando harmonia composicional e sem amontoar os cachos já existentes desse lado. Também seria conveniente um creme que pudesse manter os cachos, pois não queria desmanchá-los ao acordar, sendo apenas suficiente passar os dedos entre os cabelos na raiz, evitando oleosidade e ajeitando todo o balançar das pontas definidas que estariam perfeitas para o dia seguinte. Por fim, uma fixação com babyliss, mantendo o cabelo saudável de forma a não queimar e nem criar frizz no comprimento dos fios entre as pontas e a raiz.

Nessa altura do campeonato, os cachos naturais da amiga de Matilde Sofia até fugiram, em solidariedade ao amigo cabelereiro, que não sabia de finalizava a lavagem, enxugando os cabelos, se lavava uma quarta vez ou se picava a mula dali, repentinamente. E Matilde Sofia olhou para a amiga dizendo que ela estava no local perfeito para ter sua satisfação garantida.

O cabelereiro terminou a lavagem e direcionou-a até a cadeira no canto e, quando Matilde Sofia olhou para o rapaz, percebeu uma branquidão estranha em sua face, como se tivesse ficado em estado de choque por alguma coisa. Em seguida, recostou na cadeira e fechou os olhos, talvez imaginando como seria o resultado final da aventura capilar.

Potes em cima da bancada, pinceis, lâminas para a tintura e uma parafernália imensa surgiu no salão e ocupou o espaço em frente a ela, que abriu um sorriso ao qual foi retribuído com um sorriso meio amarelo da amiga e do rapaz talentoso. A partir daquele momento, o que escutava-se era barulho de pincel caindo, de tampa sendo colocada em pote errado, de tesoura picotando o cabelo, de tinta sendo exprimida. Tudo que se podia imaginar. Quem passava do lado de fora do salão não entendia os movimentos bruscos, os agachamentos e o contorcionismo que o cabelereiro fazia, na tentativa de satisfazer sua cliente mais detalhista. Matilde Sofia permanecia inerte, intercalando entre contar casos para a amiga e beber a água que havia trazido na garrafinha esportiva.

Era cabelo para cima, cabelo para o lado, cabelo no chão, tinta misturada, uma paleta de cores em tons terrosos para aceitar a perfeição da tonalidade de mel, tudo disponibilizado para que o sonho de Matilde Sofia pudesse ser realizado. Quatro horas se passaram e os três continuavam ali, cada qual com sua ansiedade nas alturas.

Em um determinado momento, o cabelereiro retirou os rolinhos do cabelo dela, sentou-se na cadeira ao lado e, com voz cansada anunciou a finalização do procedimento. Os três, então, com movimento sincronizado, aproximaram-se do espelho, viraram de um lado para o outro, rodopiaram a cadeira de Matilde Sofia e entreolharam-se.

Matilde Sofia emudeceu. Não conseguiu pronunciar uma letra sequer. Estava inerte, absorta em seu pensamento. Neste exato momento, uma mãe com uma moça de aproximadamente dezessete anos, provavelmente sua filha pela similaridade das duas, entrou no salão, olhou para os três e permaneceu em silêncio vendo a cena inusitada deles em observação. Simultaneamente, os três dirigiram o olhar para as duas. Foi quando a filha exclamou, sorrindo, logo após: “ Mãe, veja! É exatamente esse cabelo com cachos que eu estava imaginando!”.

Matilde Sofia sorriu em retribuição, a amiga sentiu um arrepio e uma sensação de desmaio e o cabelereiro não conseguiu pronunciar nenhuma palavra.

Se sua próxima cliente foi agraciada com o procedimento, ninguém ficou sabendo, pelo menos não naquele dia, pois Matilde Sofia caminhou para casa juntamente com a amiga. Do cabelereiro, elas não tiveram notícias naquele dia. Ficaria para o dia seguinte desvendar a curiosidade.

E quanto aos cachos de Matilde Sofia? Ah! Esses sim, pura perfeição em tons de mel, degradê e geometria!

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