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  • Paula Brandao

Matilde Sofia - Pretendentes


Era um fim de semana desses passados a limpo no modo de dizer, quando Matilde Sofia terminou de ler o livro que tanto almejava. Em certa parte do livro, existia uma tal carta que deveria ser escrita para expressar os sentimentos mais profundos e fiéis. Era mais ou menos assim: qualquer tipo de sentimento que ela pensasse ter deveria ser colocado no papel para que o pretendente ou a pessoa em questão ficasse a par do que estava acontecendo com ela naquele momento. Assim as coisas poderiam ser conversadas com mais calma e clareza e os acertos colocados em seus devidos lugares. E assim Matilde Sofia fez de forma positiva e ambiciosa. E foi assim, também, que Matilde Sofia começou a pensar na viagem para a cidadezinha próxima, onde as ruas de pedra eram sinônimo de romantismo puro e ideal. O problema foi que ela tinha em mente um rapaz que ela gostava, que não era o seu atual namorado, mas resolveu escrever carta aos amigos, desejando bons sentimentos e agradecendo a amizade de sempre. Após acabar escrevendo mais do que devia nas cartas, incluindo uma receita de bolo de chocolate tipo pudim, mencionar os amigos que não sintonizava muito para alguns e ainda destrinchar um rosário delicado sobre uma foto em que o cabelo não havia ficado muito bom, ela fechou os envelopes e entregou para a amiga. Estava apenas fazendo um exercício de expressão de sentimentos. O que ela não esperava era que a amiga lesse as cartas, pois ela esqueceu de avisar que não eram para serem lidas.

A amiga de Matilde Sofia, logo fez os cálculos de numerologia e definiu, pela história das cartas, quem era o pretendente que mais acalmava o coração de Matilde Sofia, e como também era amiga dele, resolveu dar um empurrãozinho nos dois, já que pelo cálculo feito antes por ela, o atual namorado de Matilde Sofia não tinha afinidade nenhuma com ela.

O suposto pretendente estava em um dia tranquilo quando recebeu a notícia dos sentimentos de Matilde Sofia e logo começou a criar expectativa de namoro. Talvez se a amiga de Matilde Sofia tivesse seguido à risca as instruções da carta, as coisas teriam acabado em champanhe e um belo pôr do sol. O que restou, no entanto, foram algumas caixas de lenços de papeis molhados, uma garrafa de refrigerante, já que naquela situação o rapaz não era adepto aos drinks não alcóolicos mas era fã de uma caixa de chocolate sortido, daquelas que se come desenrolando o papel devagarinho para não acabar. E, no meio dessa confusão toda, quatro rapazes chegaram, ao mesmo tempo na casa da amiga de Matilde Sofia, pois todos eles foram avisados dos sentimentos dela pelo irmão da amiga de Matilde Sofia, que pegou as cartas escondido e avisou aos outros três.

Sem pestanejar, os quatro supostos futuros namorados definiram o sábado seguinte no final da tarde como o dia e o horário ideal para uma tentativa de pedido de namoro. E entre eles o amigo de Matilde Sofia que ela mais gostava, o mesmo que saiu correndo do carro em disparada e desespero em um episódio anterior por causa do seu amor.

Chegando lá, eles se surpreenderam uns com os outros e, coincidência ou não, os quatro levaram flores para ela. A mãe da amiga de Matilde Sofia chegou bem na hora e vendo a cena confusa, permitiu que eles entrassem sem serem anunciados.

As duas amigas estavam na cozinha quando ouviram o barulho de gente chegando e foram ver quem era. Ao olharem os quatro rapazes, constrangidos e eufóricos, ficaram sem saber o que fazer e Matilde Sofia perdeu a fala e o jeito.

Os quatro conversaram sobre os prós e contras, os cursos da escola que eles estudavam, a possibilidade de estarem algum dia do outro lado do mundo e outros detalhes mais que fizeram a conversa prévia de dez minutos se tornar uma realidade bem diante dos olhos delas.

Naquele dia o tempo estava chuvoso e eles longe de comedidos. Ficaram por ali por mais um tempo relembrando os dias alegres com ela, falando das festas, das pessoas que conheceram juntos e até da rampa esquisita da escola por onde os carros desciam em ritmo de sorte para não caírem direto como em um voo rasante. Cada um deles tentava demonstrar da melhor forma suas qualidades, na esperança de conquistarem o coração de Matilde Sofia, cujo pensamento voava.

Os dias que se seguiram foram de expectativa. Telefonemas para pegar informações importantes ou alguma resposta e outras coisas mais a fim de que algum deles fosse o escolhido, pois no dia do encontro, Matilde Sofia não conseguiu balbuciar sequer uma palavra, logo ela que era tida como faladeira e maniada em filosofar sobre tudo.

A semana passou como um cometa e, na noite anterior ao sábado seguinte, Matilde Sofia mal pode dormir, pois tinha um namorado e também uma situação inusitada pela frente. Ansiedade e nervosismo estavam em alta. Era um tal de abrir diário, fechar diário, olhar as cartas que escrevera e que a amiga havia devolvido depois da insistência de Matilde Sofia, que nenhuma reavaliação levava a nenhuma conclusão. Foi quando ela olhou pela greta aberta da janela e teve uma ideia.

Matilde Sofia buscou um livro que havia comprado há muito tempo antes, que ensinava os truques de percepção para um relacionamento saudável. Passou a noite lendo o livro e anotando dicas. Na manhã seguinte enviou uma mensagem de texto com a seguinte mensagem para os rapazes e a amiga “Amar é forma geométrica que baila quando o sino toca. Quem for, será”.

Dos rapazes, nenhuma notícia mais, exceto um, o melhor amigo de Matilde Sofia que decidiu perguntar pessoalmente a ela o significado da frase e foi respondido com um “somente ir”, que ele não entendeu e também não rendeu assunto, com receio de um discurso filosófico para o qual não estava preparado emocionalmente.

A vida seguiu, Matilde Sofia guardou as cartas e decidiu que, a partir daquele aprendizado literário, já poderia ser considerada madura na arte de amar. A amiga de Matilde Sofia encafifou com a frase, mas o que conseguiu definir foi que bailar e tocar eram relacionadas às músicas de amor. O amigo continuou amigo e encafifado e mais nada.

E quanto a Matilde Sofia... quem entende Matilde Sofia? Talvez você, leitor!

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